Todo mundo já teve contato com contos de fadas. Desde cedo as crianças vêem filmes como "A Branca de Neve", "A Bela Adormecida" etc. Claro que esses são antigos, hoje em dia já existem novos, que não foram registrados em livros, eles já foram direto para o cinema. Resolvi tentar fazer uma comparação entre os conto de fadas antigos e os novos. Eu acredito, sinceramente, que os novos são mais realistas. Lembrando uma coisa: não confunda "ser realista" com "ser melhor", isso vai de cada um e, caso queira saber minha opinião, sim, eu gosto mais dos novos. Essa discussão vai nos levar a um outro tópico, mas vamos logo começar com o que interessa.
Quando éramos crianças e assistíamos "A Branca de Neve", por exemplo, víamos ali a histórinha perfeita, com personagens bons e maus bem definidos. O bem vence o mal e todos os bonzinhos vivem felizes para sempre. Fim. Sempre havia a princesa indefesa, que acabava sendo atacada pela bruxa má ou qualquer outra coisa ruim, mas no fim o príncipe chegava todo belo e maravilhoso e à salvava. Isso é um exemplo de história idealizada.
Agora vejamos os novos contos de fadas. Aqui, me refiro a "Shrek" (meu preferido), "Encantada", "Enrolados" (esse é uma recriação de "Rapunzel") etc. O que eles têm de diferente? Como disse no início, são realistas, seus personagens são mais humanos. Eles não são perfeitos, têm desvios de caráter, mas claro, como todo protagonista, eles não são maus, são apenas humanos. Outro detalhe interessante é que os contos de fadas modernos também são comédias (não, eu não acho os antigos engraçados quando tentam ser, e não venha me dizer que são formas de humor diferentes, porque "Pernalonga" é antigo e acho engraçado até hoje).
Como exemplo, obviamente, vou citar meu preferido, "Shrek". Ele é um cara grosso, anti-social, fede e é um ogro, ou seja, é feio. Mas ele é o protagonista e prícipe encantado do seu conto de fadas. A princesa Fiona também é uma ogra como Shrek, é egocêntrica (no início, quando ainda tinha sua forma humana) e acreditava que seu príncipe deveria ser tão lindo quanto ela, deveria salvá-la e eles teriam uma vida de contos de fada antigo, idealizada. O que é mais legal em "Shrek"? Mesmo depois do "felizes para sempre" eles ainda têm problemas, Shrek continua sendo um ogro anti-social e chega até a desistir da vida maravilhosa que tem com Fiona por um dia, só para poder relembrar da sua vida no pântano (mas ele é enganado por Rumpelstiltskin, o que gera a trama do quinto filme).
Em "Shrek" também podemos ver outro personagem interessante: o Príncipe Encantado. Sim, o nome dele é esse pra caso você ainda não tenha assistido (o que é um vergonha). Ele é filho da Fada Madrinha. Ambos são personagens bons nos contos de fadas antigos, mas em "Shrek" eles são vilões. O Encantado é quem deveria ter salvado Fiona da torre onde ela vivia presa, mas ele chegou atrasado e por isso busca vingança contra Shrek, que roubou o "amor da sua vida" e estragou seu "felizes para sempre". A Fada Madrinha foi quem colocou a maldição em Fiona (que ela seria uma ogra) e busca vingança contra Shrek para defender seu filhinho querido (e extremamente mimado). Será que esses dois personagens são simbolos da "morte" dos contos de fadas antigos? Bom, eles são uma excelente metáfora nesse sentido, mas não creio que os criadores de Shrek tenham feito isso de propósito.Não tenho muita certeza se um conto de fadas do modelo antigo faria sucesso hoje em dia... Parece que a cabeça das pessoas (em especial das crianças, o público alvo dessas histórias) está mais "adultizada" ou melhor, mais voltada para as coisas reais do dia-a-dia. O mundo dos ideais parece que sumiu um pouco. Mas claro, talvez eu esteja falando bobagem.
Existe um anime (desenho japonês) chamado "The World God Only Knows", que conta a história de um garoto chamado Katsuragi Keima que é um viciado em videogames, mais especificamente jogos chamados no Japão de "eroge" ou, numa tradução não literal, "simuladores de encontro". São jogos onde você tem um certo número de garotas para tentar conquistar e no fim decide com qual quer ficar, simples. Keima é um personagem interessante porque ele não tem relação de afeto com ninguem, mas é extremamente feliz fazendo apenas uma coisa: jogando. Por quê? Porque no mundo dos jogos tudo é ideal, é perfeito. As meninas são perfeitas, os locais são bonitos etc. Na história do anime, acontecem umas coisas que levam Keima a ter que conquistar umas meninas reais para retirar espíritos malignos do corpo delas, preenchendo o espaço ocupado pelos espíritos com seu amor, e sim, elas sempre esquecem de tudo depois que o espírito sai do corpo delas. A história é ridícula, mas é um ótimo anime (quem quiser saber mais sobre ele, tem uma review mais completa que eu escrevi aqui).
Agora, por que eu mencionei esse troço? No anime, quando Keima começa a ter contato com meninas reais, ele começa a encontrar pequenas partes do seu mundo ideal na realidade. Os sonhos das meninas e etc. Ou seja, na realidade existe um pouco de idealismo. Uma das meninas até parece ser extremamente comum e sem graça, até que o rapaz a conhece direito e vê que ela tem sim objetivos e, no fim, ele diz para ela nunca desistir, porque "faltam pessoas com ideais no mundo". Recentemente li um livro chamado "O Temor do Sábio", de Patrick Rothfuss, e nele tem uma parte em que um personagem diz algo como: "se juntassem todas as histórias do mundo, você teria as respostas pra todas as perguntas".Sinceramente, acredito que todos temos vidas tão ou mais interessantes que contos de fadas, mas nos acostumamos e não percebemos isso. Só quem percebe são as crianças, mas elas também acabam acostumando um dia. Se adaptar é uma maravilha que também acaba sendo uma maldição.

É um texto bem interessante esse que você escreveu, Libonati. A comparação com The World God Only Knows foi bem apropriada (pelo menos eu achei). Minha única crítica (ô palavrinha horrível) é que você disse que os contos de fada mais clássicos (branca de neve, Cinderela, chapeuzinho vermelho, etc.) são distantes da ralidade. Verdade seja dita, as versões da Disney são realmente como você descreveu, sem dúvida nenhuma, mas as versões originais, dos irmãos Grimm e de Peraut, eram tão adultas quando um filme do Martin Scorsese para suas respectívas épocas (quantas crianças não foram abandonadas para morrer nas florestas durante a idade média? quantas não morreram por terem saído da trilha e topado com um estranho de índole discutível?), lembrando que a ideia de "infância" só surgiu - se eu estiver errado, por favor me corrijam - lá pelo século XIX, junto com toda essa ideia de criar exatamente o "mundo maravilhoso" que Walt Disney reproduz nos seus desenhos. Sobre essa dinâmica do real x ideal, em especial com a ênfase que você deu nos contos de fada, eu sugiro a HQ Fables - Fábulas de Bill Willinghan, em especial um dos spin-offs (aquelas histórias centradas em um dos personagens secundários) chamada Jack of Fables - João de Fábulas. Nela, tem uma espécie de organização encarregada justamente de "podar" esse lado mais sombrio e realista de algumas fábulas e torná-las inofensivas, tanto que elas mesmas já não conseguem se reconhecer ou lembrar o que eram antes de serem "reeducadas". É um leitura agradável e que vale a pena, nem que seja pra passar o tempo. Fica aí a dica. Continuem com o bom trabalho!
ResponderExcluirDeve-se tomar cuidado de saber qual versão dos contos de fadas que conhecemos. Contos de Fadas são tradições culturais ORAIS da Europa e foram modificados durante os séculos. Alguns caras escreveram uma versão e essas acabaram passando para frente. Além disso, Os estúdios Disney da vida diluíram essas histórias para apresentá-los ao público infantil (inclusive em tempos de macartismo e policiamentos ideológicos nos EUA) e hoje já temos versões politicamente corretas que tentam ensinar reciclagem para as crianças em histórias insossas.
ResponderExcluirAs histórias atuais são sim muito boas, mas creio que você subestimou a força dos Contos de Fadas. Eles não tentam ser edificantes no plano racional, com metáforas. Eles expõem processos mentais internos com uma repaginação lúdica. Não dão lição de moral já enquadradas, mas estimulam a criança a construir por si só a solução de seus conflitos infantis.
Talvez com a modernidade, os contos de fadas convencionais tenham perdido a força que tinham com o homem ocidental, junto com os mitos e as noções religiosas. Mas quem estuda desenvolvimento infantil lamenta, e muito, o fato dos contos de outrora terem perdido o apelo no mundo de hoje.
Aqui tem, dividido em algumas partes, fragmentos do livro do Bruno Bettelheim sobre o assunto:
http://tapetedesonhos.wordpress.com/2007/09/11/psicanalise-dos-contos-de-fadas-i-b-bettelheim/
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http://otakismo.blogspot.com/
Uma coisa interessante vocês realmente me lembraram que eu não tinha me tocado: a versão dos contos de fadas antigos. Falha minha realmente. O ideal é o da Disney, mas as fábulas orais europeias realmente não têm todo aquele toque de beleza e perfeição extraordinária... Existe também, como você mencionou Kauê, toda aquele questão do politicamente correto e tal.
ResponderExcluirMas agradeço os comentários, Caio e Kauê :D . Faltou falar muita coisa nesse texto e ele não ficou tão bom. Kauê, também gosto muito do Otakismo, seus textos são excelentes ^^.
Daniel, acho que o filme Encantada expressa muito bem essa questão do real e o ideal imaginário. Nesse filme é traçado um paralelo entre o mundo real e o mundo vivido nos contos de fadas. A princesa que sai daquele mundo perfeito onde tudo está bem definido (o amor, o bem e o mal) e vem para a dura realidade da cidade grande, onde passa a ter dificuldades, mas mesmo nesta situação, continua com a certeza que seu principe encantado irá salvá-la esteja ela aonde estiver. Mas o interessante é que ela contamina as pessoas com quem convive, mostrando que a vida pode ser como um conto de fadas bem real, e na dura realidade da cidade grande encontrou seu príncipe encantado, dessa vez não um personagem de contos de fadas, mas um homem que aprende com ela como a vida pode ser muito bela.E o interessante é que seu príncipe encantado do seu mundo encantado passa a não servir mais para ela, pois sua visão do mundo aumenta, e Encantada passa a amar um mundo onde ela passa a conhecer o porquê das coisas e junto de seu novo "príncipe" passa a viver uma realidade que a deixa mais feliz e completa, porém sua vida continua como um conto de fadas, onde o amor faz o felizes para sempre.
ResponderExcluirDani. Os contos são narrativas que acabam traçando um paralelo entre a ficção e a história. Como tradições orais, transformam-se em fontes históricas capazes de caracterizar aspectos culturais importantes e, principalmente, expressam anseios próprios de uma época. Ideais sociais, políticos, ideológicos e religiosos estão sempre presentes, além do teor psicológico. Podemos citar " Cinderela" conto francês que apresenta o conflito entre condições sociais estabelecido pela própria sociedade ainda nos moldes feudais. Ora,uma camponesa, ascende socialmente à nobreza.Ou o sono profundo de Aurora e de toda a côrte, que poderia expressar a adormecimento de toda uma sociedade, só despertada por algo extremamente idealizado, no caso o beijo de amor, que poderíamos facilmente substituí-lo pelo poder do conhecimento. A Bela e a Fera tem um teor profundamente psicológico sempre identificado pela dialética, ou seja, bondade, maldade, beleza, feiura, etc. O próprio Shrek representa o monstro que é bonzinho..ou seja é um conto moderno e oferece a própria inversão dos valores....assim poderíamos citar diversos..mas lembremos que toda obra literária, cultural sempre irá expressar os valores do meio.
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